“A QUEDA”

Algo mastiga dentro de mim
Não existem remédios, não consigo dormir
O corpo aceita mesmo sem sentir
Acho que estamos perto do fim

Quero tudo e acordo com nada
Compro o mundo, mas me sinto vazio
Procuro os olhos de uma noite passada
Fico pensando quando tudo sumiu

E quando você acha que foi longe demais
Baby, sempre tem uma dose a mais
E quando você acha que foi longe demais
Baby, sempre tem uma dose a mais

Meu corpo ferve no meio do frio
Eu tenho fome do seu quadril
Ninguém consegue mais respirar
A nossa sede é incessante incapaz

E quando você acha que foi longe demais
Baby, sempre tem uma dose a mais
E quando você acha que foi longe demais
Baby, sempre tem uma dose a mais

“FORÇA, ENXADA E VOTO”

A fome do mundo para insaciáveis
Cadeia alimentar num habitat selvagem
Poucos predadores, muitas presas fáceis
A carne mais barata na bela embalagem

Tentar...
Nunca desistir sem lutar

Toda solidão some com um filtro
Só a perfeição, canibalismo puro
Fotos, seguidores, sou um retrocesso
Toda nossa vida em busca de sucesso

Lutar...
Nunca se render sem tentar

Manda, grita, humilha Até quando obedecer?
Prepare a guerrilha
Manda tudo se foder

Força, enxada e voto

Falsos heróis e um povo inimigo
Como salvar o que não tem dignidade
Somos bombas, sinal de perigo
Aqui moinhos são de verdade
Lutar...
Nunca se render, sem tentar

Manda, grita, humilha
Até quando obedecer?
Prepare a guerrilha
Manda tudo se foder

Força, enxada e voto

“CÂNCER”

O câncer se espalha nas ruas
Ninguém é só bom, ninguém é só mal
Primeiro o pão, depois a moral

A peste não tem mais cura
A nossa miséria a gente produz
Sozinhos, sem graça, sem luz

A doença corrói almas e carne
Ninguém consegue mais escapar
Mesmo doentes, vamos dançar

Homens controlam homens,
compram homens,
destroem homens
Homens controlam homens,
compram homens,
destroem homens
Homens controlam homens,
compram homens,
destroem homens
Mortos controlam mortos,
compram mortos,
destroem mortos

Dizem que o ser se humaniza na culpa
Tomando o leite e rasgando o couro
Delicadamente destruindo o outro

Só bondade é suicídio
Só maldade é extermínio
Santos, suicidas...
assassinos

Sem vítimas, heróis ou bandidos
Filme sem começo, meio ou fim
A vida termina confusa assim

Homens controlam homens,
compram homens,
destroem homens
Homens controlam homens,
compram homens,
destroem homens
Homens controlam homens,
compram homens,
destroem homens
Mortos controlam mortos,
compram mortos,
destroem mortos

“MUNDO”

Corra na cidade, favelas, coberturas
Olha a impunidade, vitrines, viaturas
Tomai vinho santo, amargo desvirtua
O mundo às avessas a vida continua

Sufoca na cidade, ruas, apartamentos
Afoga devagar com contentamento
E tudo passa assim sem perceber

Pare o mundo, por favor,
dessa vez quero descer
Pare o mundo, por favor,
dessa vez quero descer
Pare o mundo, por favor,
dessa vez quero descer

Vague pelo mundo, primeiro e terceiro
Cega a beleza, barbáries, monumentos
Bebei todo sangue sem arrependimento
De todas as pessoas que sempre esquecemos

Não existem chances, chegou a nossa vez
Repita logo tudo que com eles aprendeu
E a gente canta assim quase sem querer

Pare o mundo, por favor,
dessa vez quero descer
Pare o mundo, por favor,
dessa vez quero descer
Pare o mundo, por favor,
dessa vez quero descer

Pare!

“GENOCÍDIO FRANKEINSTEIN”

Cama, alarme, cansaço
O homem se levanta
Banho, aglomerado, atraso
Bate o cartão e avança

Marcha, máquinas, relógio
Ele recorta peças ao acaso
Tédio, leveza, ódio
Permanece o dia calado

Noite, ponto, cansaço
O homem se despede
Máquinas, aço, pedaço
Mais um dia se repete

Cachaça, sorriso, partido
O ar surge e é breve
Contas, dinheiro, alívio
Ele se recorda da greve
Quarto, mulher, solidão
Ele toma mais um trago
Sexo, raiva, redenção
Pagamento sem abraço

Cor, raça, massa
O morto se levanta e parte
Senzala, sinhô, chibata
As feridas continuam na carne

Trabalho, alienado, segmentado
Por nós todos praticado

Desgosto, repetido, parado
Até os dentes desarmados

Metade, almoço, salário
O relógio é o ritmo da produção
Guerra, luta, atraso

Rezas prometem solução

Atraso, avanço, explosão
A marcha segue nas ruas
Invasão, tanques, confusão
O homem vai pra labuta
Indústria, objeto, automático
A beleza ofusca sua função
Inerte, fatal, estático
O outro é mera distração

História, amnésia, matéria
Recorda do passado
Esquecida, feliz, espera
O homem sempre apressado

Mercadoria, amorfa, particular
Valores em massa vendidos
Corpo, tendência, subliminar
Controle da vida por estímulos

Dia, trabalho, alimentar
Voltemos ao dia do homem
Afeto, metal, exterminar
Ele pensa sempre na sorte
Anos, recompensa, fim
A fábrica produz todas as peças
Pagamento, volta, enfim
A família reunida o espera

Descanso, fim, distração
O acaso da sua produção
Encontrou sua função
Em uma enorme explosão

Com um poder destruidor
Na cama do seu criador
Repousou a bomba que ele criou
Sem saber como um golpe traidor

“NASCIDOS PARA MATAR”

Dando soco em ponta de faca
Sangue escorre e vira piada
A mente sofre, o vazio ataca
Amor é nova tendência na Prada

O Inferno de Dante é nosso lugar
Não existe promessa que vá salvar
Na terra cortada e mal distribuída
Só ódio e rancor pro resto da vida

Se esse é o jogo, vem avacalhar
Na linha de frente de quem atirar
Já não sabemos pelo que lutar
Instinto animal,
nascidos para matar

Nascidos para matar

Sem teto, sem gosto, só exterminar
Absurdo, normal no mesmo lugar
Terra em transe, sodomizada
Vamos cegos rumo ao nada

Dando soco, o vazio ataca
Amor escorre e vira piada
A mente sofre em ponta de faca
Sangue é nova tendência na Prada

Se esse é o jogo, vem avacalhar
Na linha de frente de quem atirar
Já não sabemos pelo que lutar
Instinto animal,
nascidos para matar
Nascidos para matar

“O GRITO”

Todo mundo precisa de verdades
Acreditar em alguma certeza
Entender a vida de qualquer maneira

Herói, vilão? Demônios ou santos?
Chefe, peão? Vencedores e vencidos
Certo ou errado? Céu ou inferno?
Polícia ou bandido? Verão e inverno
Raiva e amor. Alívio ou dor?

Tudo precisa ser bem definido
Para o mundo fazer sentido
Simplificando a vida, enfim,
mesmo que a vida não seja... Simples assim
Mal, bom. Malandro, otário
Silêncio, som. Sucesso, fracasso
Pobre, rico. Azar ou sorte?
Sacana, pudico. Vida e morte

Mulatos e cafuzos. Claro e confuso
Verdades para acordar Mentiras para dormir
Às vezes o inverso, apanhamos sem sentir

Fim, começo. Sonho, pesadelo.
Mercado, preço. Coragem, medo.
Honesto, trapaceiro. Nada, tudo.
Igreja, terreiro. Desprezo, respeito.
PT, PSDB, PCC. Eu ou você?
Crime, castigo. Violência, paz.
Justiça, terrorismo. Novo, antigo.
Salvador, capataz. Foice, capital.
Ateu, cristão. Luz, escuridão

Regra ou exceção?
Liberdade ou escravidão?
Mortos e feridos, tarde ou cedo
A paralisia já vai chegar
Sentimos constante medo
De nada nos salvar

E todo mundo grita verdades
Por todos os lugares
Essa é só mais uma verdade
Da verdade

Todo mundo

“ESTADO NACIONAL”

Carnificina garantida, cada deus o seu partido
Todo dia a mesma vida, rezando agradecido
Me ensinaram a ser humano,
competir para vencer
Nascidos para a guerra,
preparados pra morrer

Ninguém pode ser triste,
engula comprimidos
Rindo o tempo todo,
matando os sentidos

Criamos outro mundo, menos agressivo
Praticando todo dia um solitário suicídio

Carne e sangue enfeitam avenidas
Em camarotes, porcos riem
dos recortes de Guernica
Covardia desumana, histórias repetidas
A humanidade corre cega
prum beco sem saída

Bem cedo nos ensinam
o caminho a percorrer
O retrocesso é a lei
que vai nos prender
Vivemos de ilusão
até a nossa morte
Escravos de nós mesmos
na livre terra ao norte

Querem nos ver burros,
mas muito bem vestidos
Formar grandes seres,
respeitados e convictos
Seguir todas as regras,
comprar todos os dias
Vamos nos vendendo a milhares de messias

Carne e sangue enfeitam avenidas
Em camarotes,
porcos riem dos recortes de Guernica
Desemprego e pobreza
desfilam nas esquinas
Acenamos sorridentes para as fotos dos turistas

“RESISTENTES”

Gritos nas ruas e chacina em favela
Toda tragédia na TV fica bela
Bombas e balas, o choque nas ruas
A guerra começa, a luta continua

Nosso rosto cansado ainda é forte
Quero morrer por algo que importe
Eles são frios, a gente quer explodir
Sem cor ou sexo, a gente quer existir

Nossa raiva é combustível
Olhamos no espelho o inimigo
Agonia é ter o que é possível
Viver é estar em constante perigo

Vamos fazer barulho, quase mortos somos
resistentes
Prontos pra criar o caos,
rebeldes e desobedientes
Gritar alto o desespero no meio da multidão
Ser o pior que podemos ser é a nossa missão

Ninguém entende o que dizemos
Queremos algo que não conhecemos
Somos estranhos e bagunçados
Somos o futuro, sujo e renegado

Nossa raiva é combustível
Agonia é ter o que é possível
Os sinos badalam um hino perdido
E nada mais faz sentido

Vamos fazer barulho, quase mortos somos
resistentes
Prontos pra criar o caos,
rebeldes e desobedientes
Gritar alto o desespero no meio da multidão
Ser o pior que podemos ser é nossa missão

EXTERMÍNIO TROPICAL

Gado feliz criado em cativeiro
Em fila com passos pequenos
Vida espremida em vagões lotados
Sem tempo com rédea, pastamos cansados

Bala perdida aqui tem alvo
Promessa que ninguém vai cumprir
País sitiado: Injustiça! Ódio!
Na prateleira mastigo... Sem engolir

Sempre! Aqui! Extermínio Tropical!

Toda notícia, verdade distorcida
No matadouro, matéria prima
Compro, vendo, sou a transação
Quem programou o meu coração?

Gente invisível bate no vidro
Abandonados procuram abrigo
Por que a gente não olha o outro?
Somos ratos lutando no esgoto

Sempre! Aqui! Extermínio Tropical!